Ações, Obrigações, ETFs, Fundos de Índice — O Que São?

Um guia sem jargão sobre os quatro blocos de construção de uma carteira de iniciante: o que são realmente ações, obrigações, ETFs e fundos de índice.

Abra qualquer artigo sobre investimentos e leva com uma muralha de siglas de três letras logo no primeiro parágrafo. ETF, REIT, ESG, IPO, P/E — parece sopa de letras com piores maneiras à mesa. A verdade é que só precisa de perceber quatro coisas para investir de forma sensata: ações, obrigações, ETFs e fundos de índice. Tudo o resto é uma variação destas quatro.

Este é o Parte 2 de 6 da nossa série Investimento 101. Na semana passada cobrimos os três pré-requisitos antes de investir. Hoje: o que efetivamente se compra.

Ações: Possuir uma Fatia de uma Empresa

Uma ação é exatamente o que parece — uma pequena participação numa empresa real, em funcionamento. Se comprar uma ação de uma empresa que emitiu um milhão de ações, passa a ser dono de um milionésimo dela. Tem direito a uma fatia proporcional dos seus lucros e dos seus ativos.

De onde vêm os retornos

As ações geram dinheiro para os seus donos de duas formas:

  • Valorização do preço — a empresa torna-se mais valiosa ao longo do tempo, e o preço da ação sobe
  • Dividendos — muitas empresas estabelecidas distribuem parte dos lucros aos acionistas em dinheiro, normalmente trimestralmente

A muito longo prazo, o retorno real histórico dos mercados acionistas amplos tem sido de cerca de 6 a 7% por ano, descontada a inflação. Esse número esconde uma enorme variação anual: as ações caem rotineiramente mais de 20% num mau ano e sobem mais de 20% num bom ano. A calculadora de retorno do investimento permite-lhe brincar com diferentes pressupostos para ver como a matemática se comporta.

O compromisso

As ações têm os retornos de longo prazo mais elevados de qualquer grande classe de ativos. Mas também têm a maior volatilidade. Se emocionalmente não consegue ver a sua carteira cair 30% numa recessão sem vender, não devia estar 100% em ações — exatamente o tema que vamos explorar na Parte 3, sobre tolerância ao risco.

Obrigações: Emprestar Dinheiro a Troco de Juros

Uma obrigação é um empréstimo. Quando compra uma obrigação, está a emprestar dinheiro — a um governo, a um município ou a uma empresa — em troca da promessa de receber o valor de volta numa data específica, com pagamentos de juros regulares pelo caminho.

Um exemplo simples: compra uma obrigação do Tesouro a 10 anos com valor nominal de 1.000€ e cupão de 3%. O Estado paga-lhe 30€ por ano durante dez anos, e no final devolve-lhe os 1.000€.

De onde vêm os retornos

Principalmente dos pagamentos de juros (“cupões”). Os preços das obrigações também sobem e descem com as taxas de juro e a qualidade de crédito, mas a oscilação diária é muito menor do que a das ações.

O compromisso

As obrigações rendem menos do que as ações em períodos longos — historicamente cerca de 1 a 3% reais ao ano — mas são muito mais estáveis. Num ano em que as ações caem 25%, uma carteira de obrigações de boa qualidade pode ficar plana ou até subir ligeiramente. Essa estabilidade é precisamente a razão de existir das obrigações na carteira: suavizam o passeio, sobretudo à medida que se aproxima da altura em que vai precisar do dinheiro.

Tipos de obrigações (brevemente)

  • Obrigações do Tesouro — emitidas por governos nacionais. Risco mais baixo, rendibilidade mais baixa. Treasuries dos EUA, Bunds alemães, Gilts do Reino Unido.
  • Obrigações empresariais — emitidas por empresas. Rendibilidade mais alta, mais risco (a empresa pode entrar em incumprimento).
  • Obrigações municipais — emitidas por cidades/estados. Frequentemente com vantagens fiscais, conforme a jurisdição.
  • Obrigações de alto rendimento (“junk”) — obrigações empresariais mais arriscadas, com cupões maiores. Comportam-se mais como ações do que como obrigações numa queda.

Para a maioria dos principiantes, “obrigações” significa, na prática, um único ETF de obrigações de mercado alargado que detém milhares de obrigações ao mesmo tempo. O que nos leva diretamente ao próximo conceito.

ETFs: Comprar um Cabaz com Um Único Clique

Um ETF (exchange-traded fund) é um cabaz de muitos títulos — ações, obrigações, ou ambos — que é negociado em bolsa como se fosse uma única ação. Compre uma unidade de um ETF global de ações e fica instantaneamente com uma pequena fatia de duas ou três mil empresas, em dezenas de países.

Esta é, possivelmente, a inovação mais importante do investimento de retalho dos últimos 50 anos. Antes dos ETFs, construir uma carteira diversificada significava (a) comprar dezenas de ações individuais (caro, complicado) ou (b) usar um fundo de investimento mobiliário (frequentemente com comissões altas, transacionável apenas uma vez por dia).

Os ETFs resolveram os dois problemas. São baratos (os maiores cobram menos de 0,10% por ano), líquidos (negoceiam-se ao longo do dia como uma ação) e instantaneamente diversificados.

O que a diversificação lhe compra

Diversificação significa que o colapso de uma única empresa não pode afundar a sua carteira. Se tiver uma ação e ela falir, perde tudo. Se tiver um ETF global com 3.000 empresas e uma delas falir, perde 0,03%. Matematicamente equivalente a “mal se nota”.

Tratamos das diferenças entre os vários tipos de fundos em detalhe no nosso guia de fundos de índice vs. ETFs vs. fundos de investimento mobiliário.

Fundos de Índice: A Estratégia “Comprar Tudo”

Aqui é onde a coisa fica filosoficamente interessante. Há duas formas de um ETF (ou qualquer fundo) ser gerido:

  • Gestão ativa — um gestor humano escolhe que ações comprar, tentando bater o mercado
  • Gestão passiva (fundo de índice) — o fundo limita-se a comprar todas as ações de um “índice” definido (como o S&P 500 ou o MSCI World), sem stock-picking, apenas replicação mecânica

Um fundo de índice é, simplesmente, um fundo que segue um índice. Os fundos de índice modernos estão maioritariamente estruturados como ETFs, mas também existem fundos de índice em formato tradicional. Os termos “fundo de índice” e “ETF passivo” são, na prática, sinónimos.

Porque é que isto importa tanto

Décadas de investigação mostram que a maioria dos gestores ativos não consegue bater o índice de referência depois de comissões. Cerca de 80 a 90% dos fundos ativos têm desempenho inferior ao seu equivalente passivo em períodos de 15 anos ou mais. A matemática é simples: os fundos de índice cobram 0,03–0,10% por ano; os fundos ativos cobram 0,5–1,5%. Para bater o índice depois das comissões, um gestor ativo precisa de ser suficientemente competente para superar esse vento contrário, e os dados dizem que muito poucos o são.

É por isto que os conselhos para principiantes apontam, quase invariavelmente, para fundos de índice de mercado alargado. São baratos, simples, diversificados, e vencem a maior parte do tempo por perderem menos. Voltaremos a este debate na Parte 5 (ativo vs. passivo).

Como as Peças se Encaixam

Aqui fica a versão curta de como se constrói uma carteira típica de iniciante:

  1. Escolha uma proporção de ações vs. obrigações com base na sua tolerância ao risco (Parte 3).
  2. Preencha a parte de ações com um único ETF de fundo de índice alargado, com ações globais.
  3. Preencha a parte de obrigações com um único ETF de fundo de índice alargado, com obrigações globais.
  4. Pronto. Adicione dinheiro com regularidade. Rebalanceie ocasionalmente.

Não é uma simplificação excessiva. Algumas das carteiras mais respeitadas do mundo para investidores individuais são literalmente dois ETFs. Vamos mostrar três exemplos concretos na Parte 4. Acompanhe tudo no tracker de carteira assim que fizer a primeira compra.

Espaço reservado para afiliado — secção de seletor de ETFs / corretora com ETFs sem comissões entrará aqui.

Os Conceitos Que Vale a Pena Saber (Uma Frase Cada)

Um pequeno glossário, para que o resto da série se leia com mais fluidez:

  • Dividendo — pagamento em dinheiro feito por uma empresa aos acionistas, normalmente trimestralmente.
  • Yield (rendibilidade) — o rendimento anual (dividendos + juros) de um investimento, expresso em percentagem do seu preço.
  • Taxa de despesas (TER) — comissão anual cobrada por um fundo, em percentagem. 0,10% é barato, 1% é caro.
  • Volatilidade — quanto o preço sobe e desce ao longo do tempo. Volatilidade mais alta = passeio mais sacudido.
  • Diversificação — distribuir o dinheiro por muitos investimentos diferentes, para que nenhum sozinho o possa afundar.
  • Alocação de ativos — a mistura de ações, obrigações e outras classes de ativos na sua carteira.

Tarefas Para Esta Semana

  1. Procure dois ETFs. Pesquise um ETF global de ações amplo (experimente “MSCI World ETF” ou “VT”) e um ETF global de obrigações. Leia os respetivos fact sheets. Não compre nada ainda — apenas olhe.
  2. Anote as taxas de despesas. Qualquer valor abaixo de 0,20% por ano é bom para um fundo de índice alargado.
  3. Veja a composição de um dos fundos. A maioria dos fornecedores publica a lista completa do que o fundo detém. Percorrer 1.500 empresas torna a “diversificação” real de uma forma que nenhuma explicação consegue.

Para a semana, na Parte 3, vamos descobrir a sua combinação pessoal destes blocos — esclarecendo um dos conceitos mais mal compreendidos do investimento: a tolerância ao risco.

📚 Part2/6Investimento 101: Seu Primeiro Ano como Investidor
Series Navigation
  • Part1:Antes de Investir: Os 3 Pré-requisitos ← Previous
  • Part2:Ações, Títulos, ETFs, Fundos de Índice — O Que São? ← You are here
  • Part3:Descobrindo Sua Tolerância ao Risco(Coming Soon)
  • Part4:Sua Primeira Carteira: Três Modelos Simples(Coming Soon)
  • Part5:Ativo vs. Passivo: Por Que Iniciantes Devem Começar Simples(Coming Soon)
  • Part6:7 Erros de Iniciante Que Custam Seu Retorno(Coming Soon)